sábado, 30 de março de 2013

Carpe diem

A vida é agora. Deve gozar-se ao máximo já, porque depois será tarde demais. Não podemos também viver hoje de tal maneira que hipotecamos perigosamente qualquer futuro. A sabedoria da vida consiste neste fino equilibrio entre a moderação do usufruto do presente e a salvaguarda de um futuro igualmente feliz e saudável.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Vícios e virtudes públicos

Na sua ânsia de eficiência (eufemismo para defender interesses privados mais ou menos suspeitos ou inconfessáveis) o Estado embarca na ficção das parcerias público-privado (PPP) que não são outra coisa do que imensos labirintos onde se perde o erário público para grande gáudio de consultores e banqueiros de todas as estirpes e nacionalidades. E não há quem desmantele o logro sem cair na crítica de que a maneira tradicional de fazer obras públicas leva a desperdício, atrasos, incúria e burocracia. O que é necessário é aumentar a eficiência do Estado para não ter de ser refém da putativa e proverbial eficiência privada. Eficiência do Estado seria uma contradição nos próprios termos para os fundamentalistas do neo-liberalismo. Não penso que assim seja. Racionalizar o Estado é uma das medidas mais nobres de política orçamental. Mas, isso não significa subjugar o sector público à racionalidade privada da performance desbragada, da competitividade cega, da poupança do tostão sem olhar ao milhão. Transformar o Estado numa constelação de centros de lucro é um anacronismo e uma regressão. Medir uma utilização correcta dos recursos de todos não tem nada de neo-capitalista ou perverso. Estimular as pessoas que trabalham para o Estado a trabalhar mais e melhor a troco de adequadas recompensas materiais ou imateriais não tem nada de anómalo ou heterodoxo.

sábado, 28 de junho de 2008

O Dólar americano

A coisa está grave. É mais grave do que se pensava. Uma única explicação é insuficiente. Há um conjunto de factores muito complexos que parecem actuar na mesma direcção, isto é, da perda de valor dos activos, da espiral dos preços de produtos de base e da queda da confiança. Mas, se há um factor estrutural que, na opinião de cada vez mais pessoas, está na base da actual situação, esse factor chama-se DÓLAR, o que corresponde a dizer: ECONOMIA AMERICANA com todos os seus excessos, de despesa, de dívida, de especulação.

A economia americana tem sido o motor da economia mundial, em parte financiada pela própria economia mundial (!), por causa do papel fundamental da sua divisa, a moeda de um império que estrebucha para manter a sua primazia. O dólar, para além de unidade de medida mais ou menos universal e de meio de pagamento, é também moeda de reserva mundial, o que significa que é aceite por todos como denominador comum da riqueza. A confiança no dólar a longo prazo (ou seja na economia americana) faz com que toda a gente aceite essa moeda para guardar valor. Os bancos centrais têm uma grande parte das suas reservas (das disponibilidades sobre o exterior) expressas em dólares. Os vendedores de petróleo e de matérias-primas fixam os preços em dólares e acumulam reservas e efectuam investimentos nessa moeda.

Portanto, a moeda americana tem um papel pivot na economia global. Isso representa, por sua vez, uma vantagem enorme para os Estados Unidos que podem aumentar o défice sem grande dificuldade, porque o podem financiar através da emissão de quantidades crescentes de dólares, aceites pelos credores de todo o mundo. A coisa funciona enquanto a gigantesca dívida americana for refinanciável, isto é, enquanto os credores acreditarem que, mais tarde ou mais cedo, a dívida será reembolsada, o que supõe que a economia americana tenha um crescimento sustentado e que modere a sua despesa para gerar finalmente excedentes. Se, pelo contrário, não é essa a percepção dos credores, a confiança no dólar cai, a sua procura desce, o seu preço baixa, a taxa de juro sobe. O que até tem um efeito reequilibrador porque as importações ficam mais caras e as exportações mais baratas, porque fica mais caro pedir emprestado.

O problema é que uma perda excessiva de valor do dólar pode levar a uma espiral de perda de confiança que pode afectar a própria sustentabilidade do sistema monetário internacional que gravita em torno da moeda americana. Se os investidores acham que o ajustamento é estrutural e não apenas conjuntural, se consideram que os americanos não têm capacidade para corrigir os seus excessos ou que a economia US está a perder o seu potencial de crescimento e a sua supremacia a nível global, aí o papel de moeda de reserva do dólar é posto em causa e os investidores começam, de verdade, a fugir do dólar e a preferir outras moedas como é o caso do euro ou do yen, o que alimenta ainda mais a queda do dólar.

Acho que existe um certo risco de que este último cenário se esteja a esboçar a par com a emergência de outros centros de crescimento mundial (como a China) que retiram ainda mais centralidade ao dólar.

A relação inversa entre as tendências do preço do crude e da cotação do dólar não é, portanto, apenas coincidência. Na minha opinião, como já defendi anteriormente neste blog, trata-se de uma causalidade. Os vendedores de crude (principalmente no mercado a prazo), cujo preço é fixado em dólares, reagem à perda de valor do dólar pedindo preços mais altos do crude. Porque, no fundo, não acreditam no valor intrinseco do dólar mas sim no seu valor expresso noutras divisas o qual não cessa de baixar...

Ou seja, a subida do preço do crude em dólares serve para preservar o poder de compra do crude noutras divisas, dada a baixa do dólar.

sábado, 21 de junho de 2008

GALP II

A GALP não tem produção própria. A empresa tende a compensar essa fraqueza, entrando em parcerias com a Petrobras e com a Sonangol para beneficiar da pesquisa de novas jazidas no Brasil e em Angola. Existem também iniciativas para participar na prospecção e extracção ao largo de Timor. Mas, por enquanto, a produção própria de crude representa menos de 5% do volume de negócios da empresa que, por conseguinte, compra o produto no mercado internacional, refina-o e vende-o aos distribuidores sob a forma de refinados (gasolina, gasóleo, fuel, etc.). Se a empresa produzisse a maior parte do crude que refina, o aumento do preço internacional que não é consequência de um aumento dos custos de extracção, reflectido nos preços de venda dos refinados, traduzir-se-ia num crescimento dos lucros, como se passa com as grandes petrolíferas que têm produção própria (Exxon, Shell, BP, Total, etc.). No caso da GALP, o aumento dos preços de venda serve apenas para reflectir um aumento dos custos da matéria-prima comprada no mercado aberto. Se quisermos, serve para evitar a queda das margens da empresa, não para as aumentar. Se os preços de compra do crude aumentam todos os dias e a GALP actualiza os preços de venda da gasolina apenas uma vez por mês, é óbvio que registará perdas e essas perdas serão tanto maiores quanto mais rápido for o crescimento do preço do crude e mais espaçadas forem as actualizações dos preços na bomba.

terça-feira, 3 de junho de 2008

GALP

A cacofonia acerca do preço da gasolina continua de vento em pôpa. Será que as pessoas não percebem que a quota de responsabilidade das petrolíferas que distribuem combustíveis em Portugal, particularmente da GALP, é negligenciável. Será que não percebem que, se há opacidade no mercado, ela é sobretudo importada. Existem factores conjunturais (avultando a especulação) e estruturais (avultando a tensão da oferta de refinados e o aumento da procura de países emergentes) que explicam o aumento dos preços, mas são factores do mercado internacional basicamente fora do controle de uma companhia pequena (à escala europeia e mundial) como é a GALP. Boicotar a GALP é cego e contraproducente, apesar de excitar algumas cosnciências menos dadas a compreender a raiz das coisas e mais propensas a abraçar causas simples e populistas.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Mais uma achega à crise

A questão é simples: no que diz respeito à conjuntura não há grande coisa a fazer. Não controlamos a taxa de juro nem a taxa de câmbio. Somos respeitadores de Maastricht, temos medo das ameaças e das multas de Bruxelas e, portanto, não podemos aumentar o défice (que não anda longe dos famigerados 3% do PIB) para estimular a economia. O que pode fazer um governo de um pequeno país exposto às vicissitudes do ciclo internacional? Fundamentalmente, nada. Resta esperar que a borrasca passe. Dever-se-ia talvez repartir de forma mais justa os sacrifícios, mas a margem de manobra para uma política de redistribuição no curto prazo através dos impostos é diminuta.

Quanto às reformas estruturais, a coisa muda de figura (apesar de serem condicionadas pelas emergências da conjuntura). A reforma estrutural mais profunda em curso chama-se "cultura do esforço". Segundo os nossos actuais governantes, os portugueses seriam um bando de malandros à espera da mínima oportunidade para não fazer patavina. E ainda por cima passam a vida a lamentar-se que são pobrezinhos e que a culpa é do governo. Pois bem. É preciso disciplinar estes ingratos e metê-los sob pressão. Sob a pressão do desemprego, da precaridade, da perda de poder de compra, da destruição dos serviços públicos, da obrigação de pagamento de tudo e mais alguma coisa. É preciso estimular a concorrência entre os portugueses: todos contra todos para melhorar a produtividade. É preciso que nada seja considerado como adquirido, que as pessoas não repousem ao abrigo das mais "grandiosas" conquistas. Há sempre mais a conquistar, de forma obstinada e perseverante.

O que tudo isto quer dizer é que, pela mão dos "socialistas", diligentes praticantes do neo-liberalismo, a solidariedade e a coesão social cedem cada vez mais o passo ao individualismo e à performance, em nome do realismo e do crescimento económico, de que nunca, ninguém terá tempo de beneficiar porque andará sempre toda a gente a esforçar-se, esforçar-se, esforçar-se até à exaustão. Porque deixará de haver presente para haver só um futuro inacessível. Porque será pecado parar para descansar e - maior pcado ainda - para pensar...

Esta é a reforma das reformas no ensino, na saúde, na administração pública, na justiça, em todos os sectores que o governo quer pôr na ordem. Porque os portugueses são meninos mal educados e mal habituados. Devem primeiro sofrer e, só depois, poderão aspirar à tranquilidade e ao gozo do que terão arduamente amealhado.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Energia

O dólar baixa. Isto é: as receitas noutras divisas de produtos cotados em dólares baixam. Para compensar essa perda nada melhor do que fazer aumentar as cotações em dólares para compensar a depreciação dessa divisa. Estou a falar naturalmente do petróleo. O problema é que o preço em euros do petróleo aumenta. Se o efeito cambial explicasse tudo (ou quase tudo) o preço em euros devia permanecer estável, o que não é o caso. Por outras palavras: outros factores influenciam mais decisivamente o preço dos combustiveis, como por exemplo, o desfasamento entre procura e oferta (de produtos finais, pelo que, a falta de investimento na refinação nos últimos anos tem alguma importância), a especulação, a instabilidade geo-política, o clima, as catástrofes. A carga fiscal mantém-se estável. O Estado limita-se a "surfar" o mercado. Não é o culpado. Os distribuidores, eventualmente, aproveitam para aumentar ligeiramente as margens, mas são "peanuts". Em Portugal, o mercado da distribuição é mais concentrado, com as petrolíferas a contar mais do que as grandes superfícies, ao contrário do que sucede noutros países como a França e o Reino Unido. Mas, não creio que exista um cartel, como certas teses da conspiração parecem defender. De resto, a autoridade da concorrência parece corroborar esta opinião. A GALP, neste contexto de espiral do preço do crude, ganha menos do que as congéneres internacionais porque tem menos reservas e depende, portanto, mais das cotações do mercado secundário que tenta, nem sempre com sucesso, repercutir nas margens de refinação e nos preços de venda. A Exxon, a BP, a Total e similares ganham rios de dinheiro com o aumento dos preços do crude porque podem vender mais caro um prduto que, essencialmente, lhes custa na exploração o mesmo. Os preços baixos em termos reais dos últimos anos desincentivaram os investimentos na cadeia da produção, designadamente, na refinação. Os fluxos são por isso tensos. É que a procura, em última instância, é de produtos refinados (gasolina, gasóleo, fuel) cuja capacidade de produção não tem aumentado significativamente.

Depois, há os factores estruturais como a continuação da dependência do petróleo num contexto de boom da procura mundial de energia, não obstante os esforços de poupança, melhoria da eficiência e de diversificação, através da aposta nas energias renováveis. Mas isso é conversa de longo prazo que não explica o que se tem passado nas últimas semanas ou meses.