A coisa está grave. É mais grave do que se pensava. Uma única explicação é insuficiente. Há um conjunto de factores muito complexos que parecem actuar na mesma direcção, isto é, da perda de valor dos activos, da espiral dos preços de produtos de base e da queda da confiança. Mas, se há um factor estrutural que, na opinião de cada vez mais pessoas, está na base da actual situação, esse factor chama-se DÓLAR, o que corresponde a dizer: ECONOMIA AMERICANA com todos os seus excessos, de despesa, de dívida, de especulação.
A economia americana tem sido o motor da economia mundial, em parte financiada pela própria economia mundial (!), por causa do papel fundamental da sua divisa, a moeda de um império que estrebucha para manter a sua primazia. O dólar, para além de unidade de medida mais ou menos universal e de meio de pagamento, é também moeda de reserva mundial, o que significa que é aceite por todos como denominador comum da riqueza. A confiança no dólar a longo prazo (ou seja na economia americana) faz com que toda a gente aceite essa moeda para guardar valor. Os bancos centrais têm uma grande parte das suas reservas (das disponibilidades sobre o exterior) expressas em dólares. Os vendedores de petróleo e de matérias-primas fixam os preços em dólares e acumulam reservas e efectuam investimentos nessa moeda.
Portanto, a moeda americana tem um papel pivot na economia global. Isso representa, por sua vez, uma vantagem enorme para os Estados Unidos que podem aumentar o défice sem grande dificuldade, porque o podem financiar através da emissão de quantidades crescentes de dólares, aceites pelos credores de todo o mundo. A coisa funciona enquanto a gigantesca dívida americana for refinanciável, isto é, enquanto os credores acreditarem que, mais tarde ou mais cedo, a dívida será reembolsada, o que supõe que a economia americana tenha um crescimento sustentado e que modere a sua despesa para gerar finalmente excedentes. Se, pelo contrário, não é essa a percepção dos credores, a confiança no dólar cai, a sua procura desce, o seu preço baixa, a taxa de juro sobe. O que até tem um efeito reequilibrador porque as importações ficam mais caras e as exportações mais baratas, porque fica mais caro pedir emprestado.
O problema é que uma perda excessiva de valor do dólar pode levar a uma espiral de perda de confiança que pode afectar a própria sustentabilidade do sistema monetário internacional que gravita em torno da moeda americana. Se os investidores acham que o ajustamento é estrutural e não apenas conjuntural, se consideram que os americanos não têm capacidade para corrigir os seus excessos ou que a economia US está a perder o seu potencial de crescimento e a sua supremacia a nível global, aí o papel de moeda de reserva do dólar é posto em causa e os investidores começam, de verdade, a fugir do dólar e a preferir outras moedas como é o caso do euro ou do yen, o que alimenta ainda mais a queda do dólar.
Acho que existe um certo risco de que este último cenário se esteja a esboçar a par com a emergência de outros centros de crescimento mundial (como a China) que retiram ainda mais centralidade ao dólar.
A relação inversa entre as tendências do preço do crude e da cotação do dólar não é, portanto, apenas coincidência. Na minha opinião, como já defendi anteriormente neste blog, trata-se de uma causalidade. Os vendedores de crude (principalmente no mercado a prazo), cujo preço é fixado em dólares, reagem à perda de valor do dólar pedindo preços mais altos do crude. Porque, no fundo, não acreditam no valor intrinseco do dólar mas sim no seu valor expresso noutras divisas o qual não cessa de baixar...
Ou seja, a subida do preço do crude em dólares serve para preservar o poder de compra do crude noutras divisas, dada a baixa do dólar.
sábado, 28 de junho de 2008
sábado, 21 de junho de 2008
GALP II
A GALP não tem produção própria. A empresa tende a compensar essa fraqueza, entrando em parcerias com a Petrobras e com a Sonangol para beneficiar da pesquisa de novas jazidas no Brasil e em Angola. Existem também iniciativas para participar na prospecção e extracção ao largo de Timor. Mas, por enquanto, a produção própria de crude representa menos de 5% do volume de negócios da empresa que, por conseguinte, compra o produto no mercado internacional, refina-o e vende-o aos distribuidores sob a forma de refinados (gasolina, gasóleo, fuel, etc.). Se a empresa produzisse a maior parte do crude que refina, o aumento do preço internacional que não é consequência de um aumento dos custos de extracção, reflectido nos preços de venda dos refinados, traduzir-se-ia num crescimento dos lucros, como se passa com as grandes petrolíferas que têm produção própria (Exxon, Shell, BP, Total, etc.). No caso da GALP, o aumento dos preços de venda serve apenas para reflectir um aumento dos custos da matéria-prima comprada no mercado aberto. Se quisermos, serve para evitar a queda das margens da empresa, não para as aumentar. Se os preços de compra do crude aumentam todos os dias e a GALP actualiza os preços de venda da gasolina apenas uma vez por mês, é óbvio que registará perdas e essas perdas serão tanto maiores quanto mais rápido for o crescimento do preço do crude e mais espaçadas forem as actualizações dos preços na bomba.
terça-feira, 3 de junho de 2008
GALP
A cacofonia acerca do preço da gasolina continua de vento em pôpa. Será que as pessoas não percebem que a quota de responsabilidade das petrolíferas que distribuem combustíveis em Portugal, particularmente da GALP, é negligenciável. Será que não percebem que, se há opacidade no mercado, ela é sobretudo importada. Existem factores conjunturais (avultando a especulação) e estruturais (avultando a tensão da oferta de refinados e o aumento da procura de países emergentes) que explicam o aumento dos preços, mas são factores do mercado internacional basicamente fora do controle de uma companhia pequena (à escala europeia e mundial) como é a GALP. Boicotar a GALP é cego e contraproducente, apesar de excitar algumas cosnciências menos dadas a compreender a raiz das coisas e mais propensas a abraçar causas simples e populistas.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Mais uma achega à crise
A questão é simples: no que diz respeito à conjuntura não há grande coisa a fazer. Não controlamos a taxa de juro nem a taxa de câmbio. Somos respeitadores de Maastricht, temos medo das ameaças e das multas de Bruxelas e, portanto, não podemos aumentar o défice (que não anda longe dos famigerados 3% do PIB) para estimular a economia. O que pode fazer um governo de um pequeno país exposto às vicissitudes do ciclo internacional? Fundamentalmente, nada. Resta esperar que a borrasca passe. Dever-se-ia talvez repartir de forma mais justa os sacrifícios, mas a margem de manobra para uma política de redistribuição no curto prazo através dos impostos é diminuta.
Quanto às reformas estruturais, a coisa muda de figura (apesar de serem condicionadas pelas emergências da conjuntura). A reforma estrutural mais profunda em curso chama-se "cultura do esforço". Segundo os nossos actuais governantes, os portugueses seriam um bando de malandros à espera da mínima oportunidade para não fazer patavina. E ainda por cima passam a vida a lamentar-se que são pobrezinhos e que a culpa é do governo. Pois bem. É preciso disciplinar estes ingratos e metê-los sob pressão. Sob a pressão do desemprego, da precaridade, da perda de poder de compra, da destruição dos serviços públicos, da obrigação de pagamento de tudo e mais alguma coisa. É preciso estimular a concorrência entre os portugueses: todos contra todos para melhorar a produtividade. É preciso que nada seja considerado como adquirido, que as pessoas não repousem ao abrigo das mais "grandiosas" conquistas. Há sempre mais a conquistar, de forma obstinada e perseverante.
O que tudo isto quer dizer é que, pela mão dos "socialistas", diligentes praticantes do neo-liberalismo, a solidariedade e a coesão social cedem cada vez mais o passo ao individualismo e à performance, em nome do realismo e do crescimento económico, de que nunca, ninguém terá tempo de beneficiar porque andará sempre toda a gente a esforçar-se, esforçar-se, esforçar-se até à exaustão. Porque deixará de haver presente para haver só um futuro inacessível. Porque será pecado parar para descansar e - maior pcado ainda - para pensar...
Esta é a reforma das reformas no ensino, na saúde, na administração pública, na justiça, em todos os sectores que o governo quer pôr na ordem. Porque os portugueses são meninos mal educados e mal habituados. Devem primeiro sofrer e, só depois, poderão aspirar à tranquilidade e ao gozo do que terão arduamente amealhado.
Quanto às reformas estruturais, a coisa muda de figura (apesar de serem condicionadas pelas emergências da conjuntura). A reforma estrutural mais profunda em curso chama-se "cultura do esforço". Segundo os nossos actuais governantes, os portugueses seriam um bando de malandros à espera da mínima oportunidade para não fazer patavina. E ainda por cima passam a vida a lamentar-se que são pobrezinhos e que a culpa é do governo. Pois bem. É preciso disciplinar estes ingratos e metê-los sob pressão. Sob a pressão do desemprego, da precaridade, da perda de poder de compra, da destruição dos serviços públicos, da obrigação de pagamento de tudo e mais alguma coisa. É preciso estimular a concorrência entre os portugueses: todos contra todos para melhorar a produtividade. É preciso que nada seja considerado como adquirido, que as pessoas não repousem ao abrigo das mais "grandiosas" conquistas. Há sempre mais a conquistar, de forma obstinada e perseverante.
O que tudo isto quer dizer é que, pela mão dos "socialistas", diligentes praticantes do neo-liberalismo, a solidariedade e a coesão social cedem cada vez mais o passo ao individualismo e à performance, em nome do realismo e do crescimento económico, de que nunca, ninguém terá tempo de beneficiar porque andará sempre toda a gente a esforçar-se, esforçar-se, esforçar-se até à exaustão. Porque deixará de haver presente para haver só um futuro inacessível. Porque será pecado parar para descansar e - maior pcado ainda - para pensar...
Esta é a reforma das reformas no ensino, na saúde, na administração pública, na justiça, em todos os sectores que o governo quer pôr na ordem. Porque os portugueses são meninos mal educados e mal habituados. Devem primeiro sofrer e, só depois, poderão aspirar à tranquilidade e ao gozo do que terão arduamente amealhado.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Energia
O dólar baixa. Isto é: as receitas noutras divisas de produtos cotados em dólares baixam. Para compensar essa perda nada melhor do que fazer aumentar as cotações em dólares para compensar a depreciação dessa divisa. Estou a falar naturalmente do petróleo. O problema é que o preço em euros do petróleo aumenta. Se o efeito cambial explicasse tudo (ou quase tudo) o preço em euros devia permanecer estável, o que não é o caso. Por outras palavras: outros factores influenciam mais decisivamente o preço dos combustiveis, como por exemplo, o desfasamento entre procura e oferta (de produtos finais, pelo que, a falta de investimento na refinação nos últimos anos tem alguma importância), a especulação, a instabilidade geo-política, o clima, as catástrofes. A carga fiscal mantém-se estável. O Estado limita-se a "surfar" o mercado. Não é o culpado. Os distribuidores, eventualmente, aproveitam para aumentar ligeiramente as margens, mas são "peanuts". Em Portugal, o mercado da distribuição é mais concentrado, com as petrolíferas a contar mais do que as grandes superfícies, ao contrário do que sucede noutros países como a França e o Reino Unido. Mas, não creio que exista um cartel, como certas teses da conspiração parecem defender. De resto, a autoridade da concorrência parece corroborar esta opinião. A GALP, neste contexto de espiral do preço do crude, ganha menos do que as congéneres internacionais porque tem menos reservas e depende, portanto, mais das cotações do mercado secundário que tenta, nem sempre com sucesso, repercutir nas margens de refinação e nos preços de venda. A Exxon, a BP, a Total e similares ganham rios de dinheiro com o aumento dos preços do crude porque podem vender mais caro um prduto que, essencialmente, lhes custa na exploração o mesmo. Os preços baixos em termos reais dos últimos anos desincentivaram os investimentos na cadeia da produção, designadamente, na refinação. Os fluxos são por isso tensos. É que a procura, em última instância, é de produtos refinados (gasolina, gasóleo, fuel) cuja capacidade de produção não tem aumentado significativamente.
Depois, há os factores estruturais como a continuação da dependência do petróleo num contexto de boom da procura mundial de energia, não obstante os esforços de poupança, melhoria da eficiência e de diversificação, através da aposta nas energias renováveis. Mas isso é conversa de longo prazo que não explica o que se tem passado nas últimas semanas ou meses.
Depois, há os factores estruturais como a continuação da dependência do petróleo num contexto de boom da procura mundial de energia, não obstante os esforços de poupança, melhoria da eficiência e de diversificação, através da aposta nas energias renováveis. Mas isso é conversa de longo prazo que não explica o que se tem passado nas últimas semanas ou meses.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Leia-se (ou releia-se) Louis Althusser
O problema é que nem o bolo cresce, nem o bolo é melhor distribuido. E, portanto, as desigualdades aumentam, a pobreza propaga-se, os remediados sentem-se ameaçados. A classe média teme descer na escala social, fica atormentada, agarra-se desesperadamente aos últimos sinais de abundância. A crédito! A sociedade parece-se cada vez mais com uma matilha de feras que se degladiam entre si à falta de inimigo comum. Quase diria: ainda bem que não há um inimigo comum como os judeus ou os pretos ou os ciganos... Senão, teriamos "ensaios sobre a cegueira"... como aconteceu tristemente na história recente. E os privilegiados, vencedores do sistema alheiam-se perigosamente do pantâno que os sustenta, esquecem-se de que a ultrapassagem de um certo limiar de mal-estar, na parte de baixo da pirâmide, pode fazer desmoronar o edifício de que são o tecto. As elites inteligentes sabem distribuir as migalhas que mantêm o povo entretido, sem olhar excessivamente para os abusos da parte de cima do sistema. As elites inteligentes ostentam desprendimento, gozam com uma gestão aparentemente desinteressada dos interesses divergentes. Assim criam a cortina por detrás da qual escondem os seus verdadeiros propósitos de defender os interesses vitais dos dominadores.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Dos antropofágicos do PSD ao posto dos Correios do Soito
A "vaga de fundo" em torno de Ferreira Leite não está a acontecer, mas ela diz não atirar a toalha ao chão às primeiras criticas... nem a nenhuma crítica. Valente mulher. Assim é que é falar. E viva o estrabismo (sem ofensa) que lhe dá outro charme. O Santana diz que poucos fariam melhor do que ele se tivessem sido primeiro-ministro nas mesmas circunstâncias, logo depois de Durão Barroso que se pirou para Bruxelas e com o Sampaio à perna, esganado para dar o poder ao PS. E o outro rapazinho sem experiência (não me lembro do nome) diz que prefere assim do que cometer as enormidades do Santana da brilhantina e das discotecas de Alcântara.
O Presidente Silva, de resto do mesmo partido dos supra-citados, diz que os Portugueses não devem desistir nem resignar-se. Mas, quantas vezes é que o homem já disse a mesma coisa desde que tomou posse? Os portugueses são algum bando de masoquistas? Cumprir a Nação é alguma maratona ou prova de obstáculos? Será que temos de ser todos Vanessas Fernandes do quotidiano ou quê? Será que há alguma maldição que nos persegue à qual devemos resistir, resistir heróicamente? Estamos condenados a sofrer, a sofrer sempre para construir um futuro de prosperidade que nunca chega? Obstinadamente?
As gentes do Soito, concelho de Sabugal, distrito da Guarda, fizeram uma manifestação tenrinha para defender o posto dos Correios deles. Certamente a primeira manifestação na aldeia do Soito, porque essas coisas são próprias das cidades, das pessoas que sabem fazer voz grossa. Então porque é que foi feita essa manifestação no Soito? Porque o posto dos Correios é um dos poucos sinais que restam de protecção de um Estado bastardo, que se tem limitado a gerir a pobreza e o envelhecimento daquelas paragens, durante gerações. Lembro-me de uma viagem no Sud Express entre Paris e Coimbra, princípio dos anos 80, tendo por companheiro de "couchette" um velhote que passou todo o tempo a mamar numa garrafa de aguardante lá da terra, que cantarolava coisas indecifráveis, e que desceu da carruagem (finalmente...) no Soito, com a embriaguês nos olhos e a alegria no coração.
O posto dos Correios é uma das poucas coisas que facilita a vida ao povo do Soito, para mandar e receber notícias, para estar ao paleio com os funcionários e com os conterrâneos, em vez de ir à taberna. Para pagar os impostos. Porra! Até para tornar mais fácil o pagamento dos impostos que entram nos cofres desse Estado que sempre os abandonou. Eu sou pelos Correios do Soito. É uma da causas mais nobres destes dias, neste país. Assinarei todos os abaixo-assinados a favor dos Correios do Soito!
O Presidente Silva, de resto do mesmo partido dos supra-citados, diz que os Portugueses não devem desistir nem resignar-se. Mas, quantas vezes é que o homem já disse a mesma coisa desde que tomou posse? Os portugueses são algum bando de masoquistas? Cumprir a Nação é alguma maratona ou prova de obstáculos? Será que temos de ser todos Vanessas Fernandes do quotidiano ou quê? Será que há alguma maldição que nos persegue à qual devemos resistir, resistir heróicamente? Estamos condenados a sofrer, a sofrer sempre para construir um futuro de prosperidade que nunca chega? Obstinadamente?
As gentes do Soito, concelho de Sabugal, distrito da Guarda, fizeram uma manifestação tenrinha para defender o posto dos Correios deles. Certamente a primeira manifestação na aldeia do Soito, porque essas coisas são próprias das cidades, das pessoas que sabem fazer voz grossa. Então porque é que foi feita essa manifestação no Soito? Porque o posto dos Correios é um dos poucos sinais que restam de protecção de um Estado bastardo, que se tem limitado a gerir a pobreza e o envelhecimento daquelas paragens, durante gerações. Lembro-me de uma viagem no Sud Express entre Paris e Coimbra, princípio dos anos 80, tendo por companheiro de "couchette" um velhote que passou todo o tempo a mamar numa garrafa de aguardante lá da terra, que cantarolava coisas indecifráveis, e que desceu da carruagem (finalmente...) no Soito, com a embriaguês nos olhos e a alegria no coração.
O posto dos Correios é uma das poucas coisas que facilita a vida ao povo do Soito, para mandar e receber notícias, para estar ao paleio com os funcionários e com os conterrâneos, em vez de ir à taberna. Para pagar os impostos. Porra! Até para tornar mais fácil o pagamento dos impostos que entram nos cofres desse Estado que sempre os abandonou. Eu sou pelos Correios do Soito. É uma da causas mais nobres destes dias, neste país. Assinarei todos os abaixo-assinados a favor dos Correios do Soito!
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Abençoado país
Isto vai ficar pior.
O crescimento abranda por causa da crise internacional, o desemprego é o principal problema social, não há margem de manobra para baixar os impostos nem para conter a despesa porque o défice continua nuns elevadíssimos 2.6%. Mas, as grandes empresas continuam a ganhar rios de dinheiro, os bancos, apesar da crise sub-prime, continuam a prosperar e a afirmar-se como centros de excelência. Ali se terão concentrado os maiores crâneos deste país, ali se encontra uma "indústria" competitiva, ao nível do que de melhor existe à escala mundial. E as educadoras de infância fazem uma manifestação em Fátima contra os cortes nas despesas sociais que as atiram para o desemprego e que deixam os pais desamparados com os filhos ao deus dará. Pais que pertencem ao grupo dos privilegiados que têm emprego porque, senão, teriam tempo de sobejo para cuidar dos filhos com a carteira vazia dos subsídios de desemprego (enquanto duram). Mas, essas são actividades de sopeira que não chegam nem aos calcanhares dos vencedores do sistema que ganham à tripa forra em bancos, escritórios de advogados e firmas de consultores de projectos faraónicos que fazem as delícias dessa malta e das grandes empresas de construção cívil que não cessam de fazer "lobbying" para demonstrar o seu inestimável contributo para o emprego e para o desenvolvimento do país. E o primeiro-ministro dá abraços a Chavez para lhe caçar umas quantas concessões de petróleo em troca de alimentos. Mas, quais alimentos? Eu julgava que eramos dependentes dessa coisa cada vez mais cara. Afinal, não senhor: pagamos o ouro negro com alimentos... E o primeiro-ministro - coitado - nem se pode relaxar a fumar uma cigarrada num vôo de longo curso que logo as más linguas se exaltam a chamar-lhe fora-da-lei. E o homem, paradigmático cidadão respeitoso das leis por ele próprio inspiradas, não está com meias medidas: não só pede humildemente desculpas como, de uma assentada, decide deixar de fumar, o que não está nada mal para um conhecido amante de "jogging". De repente, o petróleo e as relações com a Venezuela, país onde labutam bravos lusitanos, são eclipsados por uma fumarada inoportuna.
O crescimento abranda por causa da crise internacional, o desemprego é o principal problema social, não há margem de manobra para baixar os impostos nem para conter a despesa porque o défice continua nuns elevadíssimos 2.6%. Mas, as grandes empresas continuam a ganhar rios de dinheiro, os bancos, apesar da crise sub-prime, continuam a prosperar e a afirmar-se como centros de excelência. Ali se terão concentrado os maiores crâneos deste país, ali se encontra uma "indústria" competitiva, ao nível do que de melhor existe à escala mundial. E as educadoras de infância fazem uma manifestação em Fátima contra os cortes nas despesas sociais que as atiram para o desemprego e que deixam os pais desamparados com os filhos ao deus dará. Pais que pertencem ao grupo dos privilegiados que têm emprego porque, senão, teriam tempo de sobejo para cuidar dos filhos com a carteira vazia dos subsídios de desemprego (enquanto duram). Mas, essas são actividades de sopeira que não chegam nem aos calcanhares dos vencedores do sistema que ganham à tripa forra em bancos, escritórios de advogados e firmas de consultores de projectos faraónicos que fazem as delícias dessa malta e das grandes empresas de construção cívil que não cessam de fazer "lobbying" para demonstrar o seu inestimável contributo para o emprego e para o desenvolvimento do país. E o primeiro-ministro dá abraços a Chavez para lhe caçar umas quantas concessões de petróleo em troca de alimentos. Mas, quais alimentos? Eu julgava que eramos dependentes dessa coisa cada vez mais cara. Afinal, não senhor: pagamos o ouro negro com alimentos... E o primeiro-ministro - coitado - nem se pode relaxar a fumar uma cigarrada num vôo de longo curso que logo as más linguas se exaltam a chamar-lhe fora-da-lei. E o homem, paradigmático cidadão respeitoso das leis por ele próprio inspiradas, não está com meias medidas: não só pede humildemente desculpas como, de uma assentada, decide deixar de fumar, o que não está nada mal para um conhecido amante de "jogging". De repente, o petróleo e as relações com a Venezuela, país onde labutam bravos lusitanos, são eclipsados por uma fumarada inoportuna.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Birmânia
Sou um completo ignorante àcerca da Birmânia. Nunca pensei visitar esse país exótico feito de monjes budistas de cabeça rapada e faces serenas, de campos de arroz infindáveis e de crepúsculos inesquecíveis. Conheço apenas uma junta militar impiedosa. Conheço apenas a pobreza extrema. Conheço apenas o apoio da China a uma ditadura anacrónica. Conheço apenas as chuvas massacrantes, os ciclones traiçoeiros, casas de cartão que se desmoronam com um sopro da Natureza e a obediência a militares sem escrúpulos. Conheço apenas imagens de corpos disformes a flutuar em àguas lamacentas, pessoas incrédulas face à desgraça que lhes bateu à porta, cadáveres transportados às costas em direcção a uma terra seca raríssima onde possam ser finalmente sepultados. E aquela ditadura que, por alegadas e inconcebíveis razões de segurança interna, impede a ajuda internacional de chegar. Porque com ela poderiam vir espiões das potências inimigas que sabotariam a integridade e a tranquilidade do país... O que se passa nesse país que não conheço e que veio para a primeira página dos jornais de todo o mundo pelas piores razões é simplesmente vergonhoso, um atentado à moral, à razão e à Humanidade.
terça-feira, 6 de maio de 2008
A vingança da agricultura
Os alimentos escasseiam e os preços sobem por causa de factores estruturais e conjunturais.
Entre os primeiros, figura essencialmente o crescimento económico e demográfico de países como a China e a India, levando à melhoria das condições de vida de milhões de pessoas que têm maior capacidade para se alimentar mais e melhor. Outro elemento estrutural é o desvio de terras férteis para a produção de plantas de uso industrial. Os famigerados bio-combustíveis têm alguma coisa a ver com isso, mas não só... Por outro lado, a agricultura intensiva conduz ao esgotamento progressivo dos solos e a rendimentos decrescentes.
Entre os elementos conjunturais incluem-se as condições climáticas desfavoráveis em certas áreas de grande produção de cereais, o aumento dos custos de produção, em particular da energia, e a especulação. O preço de certos produtos com o trigo e o milho é determinado, em certa medida, por um número reduzido de operadores em grandes bolsas de mercadorias como o Chicago Board of Trade. Quando se apercebem de que existem "fundamentais" que podem justificar a criação de um certo consenso em relação a uma tendência, esses traders não hesitam e acentuam essa mesma tendência muito para além do que seria explicado pelos putativos "fundamentais". A tudo isto se acrescenta o proteccionismo que restringe as exportações, debilitando ainda mais os países deficitários. Obviamente, os maiores prejudicados são as populações em situação de carência e de vulnerabilidade.
E tudo isto leva a um recentramento da agricultura que, de uma situação de subsídios para parar os excedentes em regiões como a UE, passa a uma situação de incentivos à produção. E um sector até há pouco tempo considerado parente pobre do crescimento, em termos de população activa e de valor acrescentado, afinal torna-se estratégico (como se, de facto, alguma vez devesse ter deixado de o ser). Com os preços e incentivos que por aí andam, pese embora a aleatoriedade dos rendimentos, por causa do risco climático, a taxa de lucro da agricultura arrisca-se a disparar, fazendo inveja a outros sectores de rendibilidade mais ortodoxa.
Entre os primeiros, figura essencialmente o crescimento económico e demográfico de países como a China e a India, levando à melhoria das condições de vida de milhões de pessoas que têm maior capacidade para se alimentar mais e melhor. Outro elemento estrutural é o desvio de terras férteis para a produção de plantas de uso industrial. Os famigerados bio-combustíveis têm alguma coisa a ver com isso, mas não só... Por outro lado, a agricultura intensiva conduz ao esgotamento progressivo dos solos e a rendimentos decrescentes.
Entre os elementos conjunturais incluem-se as condições climáticas desfavoráveis em certas áreas de grande produção de cereais, o aumento dos custos de produção, em particular da energia, e a especulação. O preço de certos produtos com o trigo e o milho é determinado, em certa medida, por um número reduzido de operadores em grandes bolsas de mercadorias como o Chicago Board of Trade. Quando se apercebem de que existem "fundamentais" que podem justificar a criação de um certo consenso em relação a uma tendência, esses traders não hesitam e acentuam essa mesma tendência muito para além do que seria explicado pelos putativos "fundamentais". A tudo isto se acrescenta o proteccionismo que restringe as exportações, debilitando ainda mais os países deficitários. Obviamente, os maiores prejudicados são as populações em situação de carência e de vulnerabilidade.
E tudo isto leva a um recentramento da agricultura que, de uma situação de subsídios para parar os excedentes em regiões como a UE, passa a uma situação de incentivos à produção. E um sector até há pouco tempo considerado parente pobre do crescimento, em termos de população activa e de valor acrescentado, afinal torna-se estratégico (como se, de facto, alguma vez devesse ter deixado de o ser). Com os preços e incentivos que por aí andam, pese embora a aleatoriedade dos rendimentos, por causa do risco climático, a taxa de lucro da agricultura arrisca-se a disparar, fazendo inveja a outros sectores de rendibilidade mais ortodoxa.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
25 de Abril
Contrariamente às críticas dominantes, incluindo as do Presidente Silva, não interpreto de forma tão negativa a ignorância do Povo em relação ao 25 de Abril. No fundo é um sintoma do seu sucesso. A liberdade e a democracia passaram a ser tão normais que é remota a recordação da sua ausência. As pessoas não precisam de se preocupar com os perigos da perda dessas conquistas porque elas estão definitivamente inscritas na sociedade. As preocupações dos portugueses são outras e são comuns à maior parte das sociedades europeias: o desemprego, a inflação, a precaridade, a criminalidade, a pobreza, a demissão do Estado das suas funções sociais. E para resolver esses verdadeiros problemas da chamada "democracia real" seriam necessários (1) uma classe dirigente de outro gabarito e (2) (talvez) outro Povo. Sem me demorar sobre o segundo ponto - obviamente discutível e, a provar-se a sua pertinência, de qualquer modo, irresolúvel - sobre o primeiro ponto os indícios são, no mínimo, preocupantes. Senão vejamos. Os políticos dizem que é necessário renovar a respectiva "classe", atraindo novos valores e, em especial, os jovens. Mas, isso é só paleio, porque, na prática, as barreiras à entrada são mais do que muitas. Continuam a ser os protegidos, fiéis e afilhados a aceder à "carreira". Os outros, menos bem nascidos ou lambedores menos eficazes de reais ou putativas importâncias estabelecidas, ficam de fora, independentemente do seu valor intrínseco. Depois, o espectáculo de gula, ambição e provincianismo a que assistimos nos partidos principais é simplesmente deplorável e não encoraja pessoas sérias a entrar no regabofe. Depois, ainda, notícias como:
"O ex-presidente do PSD Pedro Santana Lopes terminou o seu discurso perante o Conselho Nacional do partido, que decorre esta noite, afirmando-se "mais uma vez disponível para o combate". Pouco antes destas palavras, Alberto João Jardim, presidente do PSD Madeira, tinha manifestado o seu apoio a uma eventual candidatura do antigo primeiro-ministro à liderança do partido."
ou
"Assim vai o Ocidente, envolvido nas suas contradições e fragilidades, a caminho de uma decadência económica e política anunciada." dixit Mário Soares no auge do seu incontornável deslize geriátrico (com o devido respeito pelos anciãos)...
desanimam o mais voluntarioso dos cidadãos.
"O ex-presidente do PSD Pedro Santana Lopes terminou o seu discurso perante o Conselho Nacional do partido, que decorre esta noite, afirmando-se "mais uma vez disponível para o combate". Pouco antes destas palavras, Alberto João Jardim, presidente do PSD Madeira, tinha manifestado o seu apoio a uma eventual candidatura do antigo primeiro-ministro à liderança do partido."
ou
"Assim vai o Ocidente, envolvido nas suas contradições e fragilidades, a caminho de uma decadência económica e política anunciada." dixit Mário Soares no auge do seu incontornável deslize geriátrico (com o devido respeito pelos anciãos)...
desanimam o mais voluntarioso dos cidadãos.
terça-feira, 22 de abril de 2008
domingo, 20 de abril de 2008
PS/PSD
Gostei de ouvir M. Rebelo de Sousa hoje na RTP 1. A sua análise do PSD é lúcida e acutilante. Ser mais claro, como analista, sendo ao mesmo tempo parte interessada na disputa em curso seria difícil. Mas, também se poderia dizer que a sua esperteza é tal que mistura ardilosamente os dois estatutos para ganhar pessoalmente em ambos... A impressão que sai das suas palavras é que o PSD não é um partido - é um autêntico vespeiro, ninho de víboras, ringue de pugilato de facções e interesses inconciliáveis, lideradas por caciques que, num momento ou noutro, tiveram acesso ao poder partidário e/ou estatal. Ali o que está em causa são puras ambições pessoais. Quanto a ideias... nem sombra delas. E é esse o ponto que continuará a ensombrar o partido e a não fazer dele oposição credível.
Outra pessoa da mesma àrea e, como M. Rebelo de Sousa, frontal, porque não precisa da política para prosperar, que se pronunciou ácidamente sobre o PSD este fim de semana foi J. M. Júdice. Tem toda a razão em propalar a ideia, heterodoxa mas absolutamente pertinente, de fusão entre o PS e o PSD, dada a convergência de projectos políticos em torno do credo liberal. Outros poderão ser mais contidos na referência e falar em Bloco Central. Isso, aliás, corrobora a ideia do PCP de que, por detrás da crise do PSD, está fundamentalmente uma ausência de propostas alternativas ao PS, porque este último não faz outra coisa senão realizar, talvez com mais eficácia, as políticas de direita.
Uma liderança vitoriosa do PSD significa carisma e ideias diferentes das do PS. Não será fácil dada a luta de capoeira do PSD e a perseverança do PS em fazer as políticas do PSD.
Outra pessoa da mesma àrea e, como M. Rebelo de Sousa, frontal, porque não precisa da política para prosperar, que se pronunciou ácidamente sobre o PSD este fim de semana foi J. M. Júdice. Tem toda a razão em propalar a ideia, heterodoxa mas absolutamente pertinente, de fusão entre o PS e o PSD, dada a convergência de projectos políticos em torno do credo liberal. Outros poderão ser mais contidos na referência e falar em Bloco Central. Isso, aliás, corrobora a ideia do PCP de que, por detrás da crise do PSD, está fundamentalmente uma ausência de propostas alternativas ao PS, porque este último não faz outra coisa senão realizar, talvez com mais eficácia, as políticas de direita.
Uma liderança vitoriosa do PSD significa carisma e ideias diferentes das do PS. Não será fácil dada a luta de capoeira do PSD e a perseverança do PS em fazer as políticas do PSD.
Público/privado
Um dos mecanismos, subtis e perversos, que o Estado tem ao seu dispor para favorecer o sector privado consiste em nomear gestores públicos incompetentes. Imagine-se a satisfação dos negociadores privados de contratos com o Estado ao encontrar pela frente gente inexperiente ou literalmente impreparada a defender os interesses do Estado... Ora este é um dos efeitos da politização excessiva da administração pública. A um certo nível da dita administração, o critério de escolha das pessoas deve ser técnico em lugar da confiança política. A existência de um corpo de profissionais que sobreviva ao ciclo político, por vezes formados em escolas especiais (como a ENA em França) é essencial para assegurar competência e rigor na execução das decisões políticas. A não ser assim, o Estado sofre de instabilidade e de vulnerabilidade face ao assalto dos interesses privados, gerando-se uma distribuição de recursos contrária à pretendida pelas decisões de política económica.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Era uma vez
E lá foi o menino Menezes, devorado pelos amigos da onça, seguramente vítima de uma cabala elitista e sulista, de muita intriga e de conspirações impiedosas. Agora volta para Gaia onde pode continuar a espalhar o seu charme e a mandar umas bocas que não acrescentam grande coisa (para além de lhe fazer inchar o ego de D. Juan falhado da política). Talvez seja melhor assim, para o Partido e para o país que precisa de uma verdadeira Oposição. Também à direita. De qualquer maneira, pela razão invocada pelo PCP¨("o PSD sofre da prática de políticas de direita pelo PS"), a tarefa de um líder do PSD, seja ele ou ela quem for, não é fácil... É pena tudo isto porque a colonização do país pelas diferentes corporações do PS é absolutamente incrível. E a situação pode eternizar-se por falta de alternativas. Ou então, na sequência de eleições sem maioria absoluta daqui a 1 ano, far-se-á um imenso bloco central de interesses insaciáveis, cuja engorda será directamente proporcional ao emagrecimento da grande maioria do país.
Empreendimentos cheios de virtude
Clicar no título para descobrir um monumento à livre iniciativa, à concorrência, ao dinamismo empresarial, à cooperação entre países ricos e países pobres, à inovação. Empresas assim só podem prosperar porque são baseadas em ideias genuinamente arrojadas que criam riqueza e fazem avançar os respectivos países e que demonstram o que pode fazer o liberalismo económico. Bem hajam e que paguem impostos...
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