Contrariamente às críticas dominantes, incluindo as do Presidente Silva, não interpreto de forma tão negativa a ignorância do Povo em relação ao 25 de Abril. No fundo é um sintoma do seu sucesso. A liberdade e a democracia passaram a ser tão normais que é remota a recordação da sua ausência. As pessoas não precisam de se preocupar com os perigos da perda dessas conquistas porque elas estão definitivamente inscritas na sociedade. As preocupações dos portugueses são outras e são comuns à maior parte das sociedades europeias: o desemprego, a inflação, a precaridade, a criminalidade, a pobreza, a demissão do Estado das suas funções sociais. E para resolver esses verdadeiros problemas da chamada "democracia real" seriam necessários (1) uma classe dirigente de outro gabarito e (2) (talvez) outro Povo. Sem me demorar sobre o segundo ponto - obviamente discutível e, a provar-se a sua pertinência, de qualquer modo, irresolúvel - sobre o primeiro ponto os indícios são, no mínimo, preocupantes. Senão vejamos. Os políticos dizem que é necessário renovar a respectiva "classe", atraindo novos valores e, em especial, os jovens. Mas, isso é só paleio, porque, na prática, as barreiras à entrada são mais do que muitas. Continuam a ser os protegidos, fiéis e afilhados a aceder à "carreira". Os outros, menos bem nascidos ou lambedores menos eficazes de reais ou putativas importâncias estabelecidas, ficam de fora, independentemente do seu valor intrínseco. Depois, o espectáculo de gula, ambição e provincianismo a que assistimos nos partidos principais é simplesmente deplorável e não encoraja pessoas sérias a entrar no regabofe. Depois, ainda, notícias como:
"O ex-presidente do PSD Pedro Santana Lopes terminou o seu discurso perante o Conselho Nacional do partido, que decorre esta noite, afirmando-se "mais uma vez disponível para o combate". Pouco antes destas palavras, Alberto João Jardim, presidente do PSD Madeira, tinha manifestado o seu apoio a uma eventual candidatura do antigo primeiro-ministro à liderança do partido."
ou
"Assim vai o Ocidente, envolvido nas suas contradições e fragilidades, a caminho de uma decadência económica e política anunciada." dixit Mário Soares no auge do seu incontornável deslize geriátrico (com o devido respeito pelos anciãos)...
desanimam o mais voluntarioso dos cidadãos.
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