quarta-feira, 21 de maio de 2008

Energia

O dólar baixa. Isto é: as receitas noutras divisas de produtos cotados em dólares baixam. Para compensar essa perda nada melhor do que fazer aumentar as cotações em dólares para compensar a depreciação dessa divisa. Estou a falar naturalmente do petróleo. O problema é que o preço em euros do petróleo aumenta. Se o efeito cambial explicasse tudo (ou quase tudo) o preço em euros devia permanecer estável, o que não é o caso. Por outras palavras: outros factores influenciam mais decisivamente o preço dos combustiveis, como por exemplo, o desfasamento entre procura e oferta (de produtos finais, pelo que, a falta de investimento na refinação nos últimos anos tem alguma importância), a especulação, a instabilidade geo-política, o clima, as catástrofes. A carga fiscal mantém-se estável. O Estado limita-se a "surfar" o mercado. Não é o culpado. Os distribuidores, eventualmente, aproveitam para aumentar ligeiramente as margens, mas são "peanuts". Em Portugal, o mercado da distribuição é mais concentrado, com as petrolíferas a contar mais do que as grandes superfícies, ao contrário do que sucede noutros países como a França e o Reino Unido. Mas, não creio que exista um cartel, como certas teses da conspiração parecem defender. De resto, a autoridade da concorrência parece corroborar esta opinião. A GALP, neste contexto de espiral do preço do crude, ganha menos do que as congéneres internacionais porque tem menos reservas e depende, portanto, mais das cotações do mercado secundário que tenta, nem sempre com sucesso, repercutir nas margens de refinação e nos preços de venda. A Exxon, a BP, a Total e similares ganham rios de dinheiro com o aumento dos preços do crude porque podem vender mais caro um prduto que, essencialmente, lhes custa na exploração o mesmo. Os preços baixos em termos reais dos últimos anos desincentivaram os investimentos na cadeia da produção, designadamente, na refinação. Os fluxos são por isso tensos. É que a procura, em última instância, é de produtos refinados (gasolina, gasóleo, fuel) cuja capacidade de produção não tem aumentado significativamente.

Depois, há os factores estruturais como a continuação da dependência do petróleo num contexto de boom da procura mundial de energia, não obstante os esforços de poupança, melhoria da eficiência e de diversificação, através da aposta nas energias renováveis. Mas isso é conversa de longo prazo que não explica o que se tem passado nas últimas semanas ou meses.

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