A questão é simples: no que diz respeito à conjuntura não há grande coisa a fazer. Não controlamos a taxa de juro nem a taxa de câmbio. Somos respeitadores de Maastricht, temos medo das ameaças e das multas de Bruxelas e, portanto, não podemos aumentar o défice (que não anda longe dos famigerados 3% do PIB) para estimular a economia. O que pode fazer um governo de um pequeno país exposto às vicissitudes do ciclo internacional? Fundamentalmente, nada. Resta esperar que a borrasca passe. Dever-se-ia talvez repartir de forma mais justa os sacrifícios, mas a margem de manobra para uma política de redistribuição no curto prazo através dos impostos é diminuta.
Quanto às reformas estruturais, a coisa muda de figura (apesar de serem condicionadas pelas emergências da conjuntura). A reforma estrutural mais profunda em curso chama-se "cultura do esforço". Segundo os nossos actuais governantes, os portugueses seriam um bando de malandros à espera da mínima oportunidade para não fazer patavina. E ainda por cima passam a vida a lamentar-se que são pobrezinhos e que a culpa é do governo. Pois bem. É preciso disciplinar estes ingratos e metê-los sob pressão. Sob a pressão do desemprego, da precaridade, da perda de poder de compra, da destruição dos serviços públicos, da obrigação de pagamento de tudo e mais alguma coisa. É preciso estimular a concorrência entre os portugueses: todos contra todos para melhorar a produtividade. É preciso que nada seja considerado como adquirido, que as pessoas não repousem ao abrigo das mais "grandiosas" conquistas. Há sempre mais a conquistar, de forma obstinada e perseverante.
O que tudo isto quer dizer é que, pela mão dos "socialistas", diligentes praticantes do neo-liberalismo, a solidariedade e a coesão social cedem cada vez mais o passo ao individualismo e à performance, em nome do realismo e do crescimento económico, de que nunca, ninguém terá tempo de beneficiar porque andará sempre toda a gente a esforçar-se, esforçar-se, esforçar-se até à exaustão. Porque deixará de haver presente para haver só um futuro inacessível. Porque será pecado parar para descansar e - maior pcado ainda - para pensar...
Esta é a reforma das reformas no ensino, na saúde, na administração pública, na justiça, em todos os sectores que o governo quer pôr na ordem. Porque os portugueses são meninos mal educados e mal habituados. Devem primeiro sofrer e, só depois, poderão aspirar à tranquilidade e ao gozo do que terão arduamente amealhado.
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