Os alimentos escasseiam e os preços sobem por causa de factores estruturais e conjunturais.
Entre os primeiros, figura essencialmente o crescimento económico e demográfico de países como a China e a India, levando à melhoria das condições de vida de milhões de pessoas que têm maior capacidade para se alimentar mais e melhor. Outro elemento estrutural é o desvio de terras férteis para a produção de plantas de uso industrial. Os famigerados bio-combustíveis têm alguma coisa a ver com isso, mas não só... Por outro lado, a agricultura intensiva conduz ao esgotamento progressivo dos solos e a rendimentos decrescentes.
Entre os elementos conjunturais incluem-se as condições climáticas desfavoráveis em certas áreas de grande produção de cereais, o aumento dos custos de produção, em particular da energia, e a especulação. O preço de certos produtos com o trigo e o milho é determinado, em certa medida, por um número reduzido de operadores em grandes bolsas de mercadorias como o Chicago Board of Trade. Quando se apercebem de que existem "fundamentais" que podem justificar a criação de um certo consenso em relação a uma tendência, esses traders não hesitam e acentuam essa mesma tendência muito para além do que seria explicado pelos putativos "fundamentais". A tudo isto se acrescenta o proteccionismo que restringe as exportações, debilitando ainda mais os países deficitários. Obviamente, os maiores prejudicados são as populações em situação de carência e de vulnerabilidade.
E tudo isto leva a um recentramento da agricultura que, de uma situação de subsídios para parar os excedentes em regiões como a UE, passa a uma situação de incentivos à produção. E um sector até há pouco tempo considerado parente pobre do crescimento, em termos de população activa e de valor acrescentado, afinal torna-se estratégico (como se, de facto, alguma vez devesse ter deixado de o ser). Com os preços e incentivos que por aí andam, pese embora a aleatoriedade dos rendimentos, por causa do risco climático, a taxa de lucro da agricultura arrisca-se a disparar, fazendo inveja a outros sectores de rendibilidade mais ortodoxa.
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