A coisa está grave. É mais grave do que se pensava. Uma única explicação é insuficiente. Há um conjunto de factores muito complexos que parecem actuar na mesma direcção, isto é, da perda de valor dos activos, da espiral dos preços de produtos de base e da queda da confiança. Mas, se há um factor estrutural que, na opinião de cada vez mais pessoas, está na base da actual situação, esse factor chama-se DÓLAR, o que corresponde a dizer: ECONOMIA AMERICANA com todos os seus excessos, de despesa, de dívida, de especulação.
A economia americana tem sido o motor da economia mundial, em parte financiada pela própria economia mundial (!), por causa do papel fundamental da sua divisa, a moeda de um império que estrebucha para manter a sua primazia. O dólar, para além de unidade de medida mais ou menos universal e de meio de pagamento, é também moeda de reserva mundial, o que significa que é aceite por todos como denominador comum da riqueza. A confiança no dólar a longo prazo (ou seja na economia americana) faz com que toda a gente aceite essa moeda para guardar valor. Os bancos centrais têm uma grande parte das suas reservas (das disponibilidades sobre o exterior) expressas em dólares. Os vendedores de petróleo e de matérias-primas fixam os preços em dólares e acumulam reservas e efectuam investimentos nessa moeda.
Portanto, a moeda americana tem um papel pivot na economia global. Isso representa, por sua vez, uma vantagem enorme para os Estados Unidos que podem aumentar o défice sem grande dificuldade, porque o podem financiar através da emissão de quantidades crescentes de dólares, aceites pelos credores de todo o mundo. A coisa funciona enquanto a gigantesca dívida americana for refinanciável, isto é, enquanto os credores acreditarem que, mais tarde ou mais cedo, a dívida será reembolsada, o que supõe que a economia americana tenha um crescimento sustentado e que modere a sua despesa para gerar finalmente excedentes. Se, pelo contrário, não é essa a percepção dos credores, a confiança no dólar cai, a sua procura desce, o seu preço baixa, a taxa de juro sobe. O que até tem um efeito reequilibrador porque as importações ficam mais caras e as exportações mais baratas, porque fica mais caro pedir emprestado.
O problema é que uma perda excessiva de valor do dólar pode levar a uma espiral de perda de confiança que pode afectar a própria sustentabilidade do sistema monetário internacional que gravita em torno da moeda americana. Se os investidores acham que o ajustamento é estrutural e não apenas conjuntural, se consideram que os americanos não têm capacidade para corrigir os seus excessos ou que a economia US está a perder o seu potencial de crescimento e a sua supremacia a nível global, aí o papel de moeda de reserva do dólar é posto em causa e os investidores começam, de verdade, a fugir do dólar e a preferir outras moedas como é o caso do euro ou do yen, o que alimenta ainda mais a queda do dólar.
Acho que existe um certo risco de que este último cenário se esteja a esboçar a par com a emergência de outros centros de crescimento mundial (como a China) que retiram ainda mais centralidade ao dólar.
A relação inversa entre as tendências do preço do crude e da cotação do dólar não é, portanto, apenas coincidência. Na minha opinião, como já defendi anteriormente neste blog, trata-se de uma causalidade. Os vendedores de crude (principalmente no mercado a prazo), cujo preço é fixado em dólares, reagem à perda de valor do dólar pedindo preços mais altos do crude. Porque, no fundo, não acreditam no valor intrinseco do dólar mas sim no seu valor expresso noutras divisas o qual não cessa de baixar...
Ou seja, a subida do preço do crude em dólares serve para preservar o poder de compra do crude noutras divisas, dada a baixa do dólar.
sábado, 28 de junho de 2008
sábado, 21 de junho de 2008
GALP II
A GALP não tem produção própria. A empresa tende a compensar essa fraqueza, entrando em parcerias com a Petrobras e com a Sonangol para beneficiar da pesquisa de novas jazidas no Brasil e em Angola. Existem também iniciativas para participar na prospecção e extracção ao largo de Timor. Mas, por enquanto, a produção própria de crude representa menos de 5% do volume de negócios da empresa que, por conseguinte, compra o produto no mercado internacional, refina-o e vende-o aos distribuidores sob a forma de refinados (gasolina, gasóleo, fuel, etc.). Se a empresa produzisse a maior parte do crude que refina, o aumento do preço internacional que não é consequência de um aumento dos custos de extracção, reflectido nos preços de venda dos refinados, traduzir-se-ia num crescimento dos lucros, como se passa com as grandes petrolíferas que têm produção própria (Exxon, Shell, BP, Total, etc.). No caso da GALP, o aumento dos preços de venda serve apenas para reflectir um aumento dos custos da matéria-prima comprada no mercado aberto. Se quisermos, serve para evitar a queda das margens da empresa, não para as aumentar. Se os preços de compra do crude aumentam todos os dias e a GALP actualiza os preços de venda da gasolina apenas uma vez por mês, é óbvio que registará perdas e essas perdas serão tanto maiores quanto mais rápido for o crescimento do preço do crude e mais espaçadas forem as actualizações dos preços na bomba.
terça-feira, 3 de junho de 2008
GALP
A cacofonia acerca do preço da gasolina continua de vento em pôpa. Será que as pessoas não percebem que a quota de responsabilidade das petrolíferas que distribuem combustíveis em Portugal, particularmente da GALP, é negligenciável. Será que não percebem que, se há opacidade no mercado, ela é sobretudo importada. Existem factores conjunturais (avultando a especulação) e estruturais (avultando a tensão da oferta de refinados e o aumento da procura de países emergentes) que explicam o aumento dos preços, mas são factores do mercado internacional basicamente fora do controle de uma companhia pequena (à escala europeia e mundial) como é a GALP. Boicotar a GALP é cego e contraproducente, apesar de excitar algumas cosnciências menos dadas a compreender a raiz das coisas e mais propensas a abraçar causas simples e populistas.
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